sexta-feira, 24 de abril de 2026

O Que Eu Quero dizer Quando Digo Eu?

eu rato eu luz eu quem sabe eu fui eu talvez eu quero eu sinto

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eu andando pelo mundo

eu contra um

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eu não eu fui eu volto eu aprendo eu admito eu desaprendo

eu acredito eu vejo eu sexo eu bebo eu desfaço eu costuro

eu pinto eu escrevo eu bordo eu escuto eu lavo eu passo eu cozinho eu vomito

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eu criatura

eu olhando com raiva

eu amava

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eu espirro eu volto eu falo eu trago eu cuido eu molho

eu poderia eu quisera eu pudera eu te amo

eu esqueço eu não consigo eu perdoo eu sopro

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eu entrego

eu grito eu volto eu céu 

eu preciso que digam

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eu olho eu beijo eu canto eu desafino eu desatino eu procrastino eu penso eu embolo eu perco eu rumo eu mato 

eu te abraço eu te cheiro eu te sinto eu te vejo eu te quero eu te lua eu não posso

eu calo eu morro

eu me mordo à toa

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eu sonhei eu passado eu presente eu futuro eu no escuro 

eu danço 

eu tropeço eu levanto eu chego eu aqui eu lá longe eu você

eu sei eu tudo eu santa eu demônio eu sirvo eu faço eu café eu bolo eu nós 

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eu eu eu eu eu deus

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eu não quero eu finjo eu pretendo eu respiro eu vou embora eu crio eu invento eu lamento (o choro boliviano)

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eu ela eu ele eu toda eu maria eu cretina eu sedenta eu velha eu azeda

eu porque eu onde eu todavia eu coitada eu história eu nuvem eu a pé eu tão linda eu jazz eu domingo eu domingo eu alucino 

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eu quero mais

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eu nado eu peixe eu resvalo eu infinito 

eu peito

eu dente

eu unha

eu sangue

eu? disse

que sim

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eu estava no apartamento

(atônita)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Estou Sonhando Ou Isso É Mais Que Um Sonho?

 De vez em quando sei lá de onde

Vem um cheiro que não consigo entender
Já aconteceu várias vezes neste lapso de tempo
Estou na sala lendo e sendo cúmplice das horas

Não sei se é ovo frito
Não sei se é madeira envelhecida
Não sei se é doce de maçã
Ou vinho deixado no copo

Não sei se entra pela porta da varanda
Ou exala dos espíritos

Mas sei que quando bate o odor
Esse que me aquece as entranhas
Me sinto Scarlett
Aconteceu de novo agora
Não sei se é o ventre das ostras

Ou geléia de jabuticaba

É como se me fosse oferecido um pequeno frasco de paraíso
E eu pudesse reconhecer
Daqui do meu sofá de couro marrom
A face enternecida da felicidade

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terça-feira, 14 de abril de 2026

Em Silêncio

Se tivesse que escolher entre duas dores

para conviver com uma delas 

para o resto da vida

Escolheria a dor de amar

do que a dor de não amar

Para a dor de amar poderia escrever em letrinhas articuladas

sobre uma folha de papel com meus próprios dedos

O que há de mais belo

Não amar não me valeria a dor em nada

Seria como ler um livro do idioma japonês

Estou no escritório

- varrido pelas asas de milhares de aleluias criando a primavera

Além de mim vejo aqui outra mulher

Mas nada posso dizer sobre o seu destino

A rainha de copas me olha sapiente

A sala em pleno recital

Todos sabemos que o amor move o mundo

- não há o que demova gente que tem amor no coração

Em qualquer cidade do mundo agora existe um amor

com nome e cara de amor

Em silêncio dentro de um carro

Sou capaz de mistificá-los todos

a obra a mesa o café o cabelo

espaguete a bolonhesa

chá de carqueja com hortelã

a alegria a música

árvore janela

E num dia como hoje descubro o estilhaço das cartas

O que eu quero mesmo é ser beijada no canto da nuca ali

onde nasce o sol

como amor e ganas

falar palavras que nunca falei

me janta

me fode

me joga no mar

com ternura e olhar perdido passeando pela intimidade alheia

O lábio inchado de ânsia e palavras adocicadas

estremece de amor 

o amor mais duro

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