quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Cansada
quarta-feira, 8 de junho de 2022
Depois de Tudo Ela Fugiu
Sentada no banco da praça
Inebriada pelo domingo na Barra
Vi uma bruxa
Na casa dos seus sessenta anos - suponho
cheirando a naftalina
Sandálias de plástico azul tiffany
com meias surradas
E um chapéu marrom de abas capengas
enfeitado de penas
Não foi pelas suas vestes
Tampouco pelo seu cabelo comprido
Ou pela lata de cerveja barata
A revelação de sua cidadania
Não foi
Ela é bruxa. Eu sei que ela é
Havia uma aura de sabedoria ao seu redor e adiante
Uma apatia ornamental perante os eufóricos
Essa mulher bruxa certamente não tem vida fácil
Mas ela sabe o que fazer com o difícil
Elas sabem
Não havia luz elétrica
Era tudo preto breu
Somente as bruxas
Sapeavam na escuridão
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Este poema foi escrito no inverno de 2021.
A cena descrita no poema é exatamente o que vi na praça ao lado da praia da Barra da Lagoa, naquele domingo de tarde antes do jogo de futebol começar, e a gente sair rumo ao primeiro boteco onde ouvi a lenda sobre a magia das bruxas que ronda toda a Ilha de Florianópolis, contada por um manesinho local, e pude então concluir o poema.
terça-feira, 31 de maio de 2022
O Glorioso Cafezinho Do Melhor Jeito Possível
Café é poesia na sua mais completa magnitude e você não pode discordar. Discordar de mim pode mas não pode discordar do café tampouco da poesia.
Essas cafeteiras italiana vintage são a maior prova de amor entre a poesia e o design.
Via: BarlafusShop
sexta-feira, 20 de maio de 2022
Uma Carta De Amor Para Todos Os Escritores
De vez em sempre me assumo pensando se vocês, especialistas em gestão de palavras, são seres de muita sorte ou de muito azar.
Nunca consegui chegar numa resposta. Sigo com a dúvida e me parece que ela será sempre o ingrediente misterioso. Ou teremos um manual de respostas apropriadas, histórias ricas, poemas profundos de amor, ou uma prescrição médica, impreterivelmente.
Coleciono seus escritos, meus queridos escritores, deveria ser mais organizada e manter todas as frases, textos, poemas, dos mais preciosos que li, num altar imaculado, mas nunca consegui, sou fruto do caos, e o que faço quando me deparo com a palavra certa é levar a mão de encontro ao peito e cavar um suspiro profundo, confesso, por vezes, uma lágrima me escapa também.
Como conseguem fazer isso com as pessoas? Como conseguem dar voz ao sentimento do mundo? Ao invés de arte, a escrita deveria ser considerada um crime. Não se pode colocar palavra na boca dos outros, não é mesmo?
Mas a vocês a permissão foi concedida, foram absolvidos...
...
Se tenho um amigo escritor, ainda que na estante, não me sinto sozinha. Não foram poucas as vezes em que cheguei em casa depois de um dia difícil e me socorri em suas palavras deliberadamente. Foram infinitos os casos que parafraseei, famosos e anônimos, na tentativa de botar emoção numa história que naufragava.
Em todas as situações estranhas nas quais me meti, principalmente naquelas onde não sabia o que dizer, procurei por você, meu escritor dono de todas as respostas, em forma de livros, revistas, jornais, bulas, frases soltas também, para conversar comigo. "O Incrível Mar De Palavras”, ou "As Ondas Que Quebram Em Textos Mágicos”, poderiam ser títulos que eu certamente procuraria para quebrar a muralha do meu próprio silêncio.
...
O cheiro de mofo que exala de suas palavras antigas me seduz e embriaga fortemente. É quando me percebo viciada e rendida, entregue plenamente ao que me possa acontecer depois: uma cartela de antialérgicos e um coração acelerado, pelo mofo sim, mas sobretudo pelo efeito, muitas vezes alucinógeno, de suas palavras.
Ouvir conversa alheia é algo que tenho certa prática, de tanto procurar pela palavra perdida acabei por adquirir esperteza. Ouvir conversas de almas escritoras que colocam vírgulas, usam palavras de viés, pausam longamente digerindo cada pingo, acento e travessão, é algo que já perdi o controle faz tempo: leva meu coração. Por contrabando ainda aprendi história, filosofia, arte, já viajei para vários lugares e vivo em estado de alerta ansiando por cada verso novo.
Que assim seja.
Sigo colada em seus passos, escritores do bem, usufruindo da graça de poder tê-los por perto.
Um mar de palavras, ah, ele não seria suficiente para dizer como amo vocês, mas ainda assim espero que consigam imaginar. Eu realmente espero.
segunda-feira, 16 de maio de 2022
Elogio Dos Sonhos: Um Poema de Wislawva Szymborska
eu pinto como Vemeer van Delt.
Falo grego fluente
e não só com os vivos.
Dirijo um carro
que me obedece.
Tenho talento
escrevo grandes poemas.
Escuto vozes
não menos do que os veneráveis santos.
Vocês se espantariam
com a minha performance ao piano.
Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha.
Ao cair do telhado
desço de manso na relva.
Respiro sem problema
debaixo d'água.
Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida.
Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer.
Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado.
Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época.
Faz alguns anos
vi dois sóis.
E anteontem um pinguim
com toda clareza.
(Imagem da obra girl with the red hat de Vemeer van Delt, via)


